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Luzes, câmera, EducAção: alunos da Rede Municipal de Ensino descobrem o poder de contar histórias no cinema

Cinco da manhã. O dia mal começa e Murilo do Nascimento Sales, de 11 anos, já pula da cama. Estudante da Rede Municipal de Ensino de João Pessoa, o garoto tem hábitos comuns aos dos colegas da mesma idade que estudam pela manhã. Acorda cedo, toma banho, escova os dentes, arruma a mochila e segue para a escola. Mas, há duas semanas, a rotina de Murilo foi quebrada por um resultado que agora o impede de passar despercebido.

O estudante ganhou o prêmio de melhor ator do Curta 5 – Festival Estudantil de Curtas, realizado em Vitória da Conquista, na Bahia. A conquista o fez descobrir que não nasceu apenas para assistir às histórias dos outros. Ele passou a entender que também pode interpretar essas histórias nas telas dos cinemas.

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Murilo é o ator principal do curta-metragem Irmão Negro, produzido na própria escola. O menino interpretou o personagem Badu, uma criança negra alvo de preconceitos dos colegas.

A mãe Mayara é só orgulho do filho premiado. “Eu vi um talento que o meu filho tem que eu ainda não tinha descoberto. Pretendo elevar ele a esse rumo. Inclusive eu já encontrei uma escola para atores, que agora no começo do ano eu irei inscrevê-lo para dar continuidade”, contou.

Educação e arte – A conquista de Murilo revela um mundo onde a educação e a arte precisam caminhar juntas. E é isso que a Prefeitura de João Pessoa está fazendo. Ao abraçar o cinema, por exemplo, a escola Presidente João Pessoa ganhou novas janelas, onde entram histórias, sonhos, descobertas e outros modos de enxergar o mundo. Com essa união, pode acontecer uma mudança silenciosa, mas profunda: os alunos descobriram que têm uma voz e que aquilo que elas pensam, sentem e imaginam também pode ocupar uma tela.

Fazer cinema exige ouvir, dividir tarefas, cooperar e confiar no outro. Os conteúdos escolares passam a dialogar com histórias, imagens e experiências concretas. A escola passa a ensinar não apenas conteúdos, mas também possibilidades. E o cinema passa a ser mais do que entretenimento: torna-se linguagem, experiência, pertencimento e descoberta.

Tudo isso se resume nas falas dos atores do curta-metragem.

Quando a escola acende a tela – Antes de existir um filme, existia um livro. Antes da câmera, havia uma professora contando uma história. E antes do troféu, dos aplausos e dos prêmios, havia alunos de uma escola pública descobrindo, aos poucos, que também poderiam ocupar o lugar de quem cria.

Na Escola Municipal Presidente João Pessoa, o cinema nasceu de um projeto de leitura. Ao longo dos anos, a professora Ana Cristina André Miranda transformou os livros da biblioteca em ponto de partida para experiências que ultrapassavam as páginas. Foi assim que Irmão Negro, obra de Walcyr Carrasco, deixou de ser apenas uma história lida em sala de aula e ganhou voz, corpo, cenário e, finalmente, uma câmera.

Primeiro veio a contação de histórias. Depois, os ensaios. Até que surgiu uma ideia que parecia, nas palavras da própria professora, uma brincadeira. Não era. Era cinema.

Cristina lembra que foram meses de preparação. Ensaios, dúvidas, organização e a sensação, em alguns momentos, de que não seria possível. Até que os alunos chegaram ao sábado de gravação e assumiram seus papéis como um verdadeiro elenco.

O resultado foi além do que a professora imaginava.

“Por trás daquele troféu existe um esforço, onde cada aluno é protagonista de sua própria vida. Eu fico emocionada porque são alunos de escola pública. Cada um tem um contexto diferente de vida, e se nós professores não abraçarmos cada um deles, a gente perde para o mundo. A gente sabe que a base são os estudos, é a educação”, compartilhou a professora.

Da página para a tela – A história começou com Cristina e os livros. O professor William Bezerra entrou trazendo outra linguagem. Com experiência de nove anos trabalhando com cinema e educação, ele levou para a escola equipamentos e conhecimentos técnicos que já utilizava em outro projeto.

Câmera DSLR. Microfone. Edição. Montagem. Mas o mais importante não estava no equipamento. Era a participação dos alunos. Eles ajudaram a decidir quais cenas funcionariam melhor e acompanharam o processo de construção do filme. Para William, colocar uma câmera dentro da escola significa também abrir uma janela.

A mudança, segundo ele, não acontece apenas porque os estudantes aprendem a fazer cinema. O audiovisual permite aproximar diferentes áreas do conhecimento e transformar conteúdos em experiências.

O filme Irmão Negro aborda racismo, preconceito, respeito e diversidade. E, ao fazer esse recorte social, os alunos não apenas interpretaram uma história. Eles passaram a discutir aquilo que a história queria dizer. Quando se viram na tela, descobriram também outra coisa: a imagem deles podia carregar uma mensagem.

“A partir do momento que a gente vai fazer algo projetado para o audiovisual, tudo muda. Conseguimos abranger dança, falar sobre ciência de uma forma lúdica, sobre a língua portuguesa como a leitura de uma forma mais lúdica por meio do audiovisual. E, mais importante, ensinar nossas crianças a não ter preconceito, a partir desse recorte que fizemos”, acrescentou William.

Quando o professor também aprende – Professor de Artes e ligado ao teatro, Francisco Pedro Neto já conhecia o palco. Cinema, porém, era outra linguagem. Foi preciso aprender. Enquadramento. Interpretação para a câmera. Diferenças entre representar para o teatro e representar para o audiovisual. Enquanto ensinava os alunos, Francisco também pesquisava e aprendia.

“O processo às vezes nas artes é muito mais importante do que o resultado final, do que uma apresentação, do que uma premiação. Porque ali é onde eles aprendem o trabalho em equipe, o respeito, a responsabilidade. Chegar na hora, não faltar na hora dos ensaios. Decorar suas falas, a leitura, então todo esse processo que vem antes ele é muito mais importante do que o evento em si”, falou.